# Energia Nuclear em Portugal: Custos, SMRs, financiamento, caminho de entrada e localização > Documento de referência, com fontes, sobre os custos do nuclear, os SMRs, o financiamento, o caminho para Portugal entrar na energia nuclear e onde construir. Autor: Diogo Valada, Engenheiro Físico (Instituto Superior Técnico). Versão 1.0, 23 de outubro de 2026. Licença CC BY 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt). Em português europeu; os números entre parênteses retos remetem para a lista de referências no fim. Fonte: https://nuclear-em-portugal.vercel.app/ **Documento vivo.** É revisto à medida que surgem dados novos; a versão mais recente está sempre em [nuclear-em-portugal.vercel.app](https://nuclear-em-portugal.vercel.app/). Este documento trata sobretudo dos custos, do financiamento e dos passos para introduzir o nuclear em Portugal. Outros temas frequentes no debate, como os resíduos, a segurança, a disponibilidade de urânio e tório ou a descentralização da rede, são tratados no [«Rescaldo do evento “Nuclear: Um Debate Necessário”»](https://nuclear-em-portugal.vercel.app/documentos/rescaldo-nuclear-um-debate-necessario-2024.pdf) (2024). Recomenda-se também o livro gratuito [«Nuclear: posologia para combater a desinformação»](https://www.ipfn.tecnico.ulisboa.pt/fusao_nuclear_alteracoes_climaticas/download_posologia.html), de Bruno Soares Gonçalves (Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear, Técnico), que responde de forma acessível aos mitos mais comuns sobre segurança, radiação, resíduos e risco sísmico. ## Sumário executivo 1. **O importante é o custo total do sistema elétrico, não o de cada central.** Guardar em baterias o equivalente a um só dia de consumo nacional custaria ~16–28 mil milhões €, um valor comparável ao de dois grandes reatores ao custo europeu. Portugal tem eletricidade relativamente barata, em parte graças à hídrica, que varia muito entre anos secos e húmidos e tem pouca margem para crescer. 2. **O nuclear ficou caro no Ocidente sobretudo por falhas de execução, não por causa da tecnologia.** As causas são a perda de experiência, a construção iniciada com o projeto incompleto, as primeiras unidades de cada modelo, o capital caro e os atrasos. O mesmo padrão afeta outras grandes obras, como o HS2, Stuttgart 21 ou a Linha Circular do Metro de Lisboa. 3. **Onde se constrói em série, com o projeto fechado, o nuclear é muito mais barato e rápido.** Segundo projeções da IEA/NEA, o custo de construção *overnight* (sem juros) ronda os 1,9 mil milhões €/GW na Coreia e os 2,2 na China. O tempo mediano de construção no mundo foi de 6,3 anos (reatores concluídos até 2023), e no Japão a média fica abaixo de 5. 4. **Os SMRs ainda não provaram que produzem eletricidade mais barata.** Por GW, as primeiras unidades custam mais do que um grande reator bem executado: Darlington, no Canadá, tem um orçamento de ~11 mil milhões €/GW com juros, muito acima de Barakah, nos Emirados (~4). A vantagem real dos SMRs são investimentos menores e mais faseados. O que baixa os custos é a modularidade e a construção em série, não o tamanho do reator. 5. **O custo do capital é a variável que mais pesa.** Com uma taxa real de 7%, o financiamento representa quase 60% do custo da eletricidade nuclear; a 3%, cerca de 30%. Para um investimento de 4,5 mil milhões €/GW, baixar a taxa de 10% para 3% faz o custo descer de ~97 para ~43 €/MWh. 6. **Há hoje mais formas de financiar o nuclear do que há cinco anos.** A taxonomia da UE já o inclui, o BEI financia-o e, em 2025, o Banco Mundial levantou a proibição de o financiar. Para Portugal, o crédito à exportação do país fornecedor parece a via mais promissora para baixar o juro, com o BEI como complemento. A receita pode ser garantida por contratos de longo prazo com grandes consumidores (como os data centers de Sines), pelo modelo Mankala ou por um contrato por diferença (CfD) com o Estado. 7. **A IAEA estima 10–15 anos até à primeira central.** Muitas das tarefas preparatórias são baratas e “sem arrependimento”, e podem começar já, em paralelo com o estudo de Custos Totais do Sistema da DGEG. Isso poupará vários anos se a decisão for positiva. 8. **Onde construir?** Os antigos locais de centrais térmicas já têm rede, acessos e tradição industrial, e são bons candidatos à partida. É o caso do **Pego**, no interior, com rede e ferrovia (a principal incógnita é o caudal do Tejo em anos secos), e de **Sines**, com água do mar, rede, porto e grande consumo próximo. Também nós de 400 kV como **Lavos** (Figueira da Foz) merecem estudo. A escolha final deve resultar de um levantamento nacional de locais segundo os critérios da IAEA. ## 1 Porquê considerar o nuclear? Custos de sistema e segurança de abastecimento **Mensagem principal** O que conta para o consumidor é o **custo total do sistema**, não o custo isolado de cada central. As renováveis variáveis têm LCOE baixo, mas esta métrica externaliza vários custos necessários para ter uma rede estável que funcione 24/7, como custos de rede, armazenamento, reserva e estabilidade. ### O que o LCOE mede e o que deixa de fora - O LCOE é o preço médio a que a energia de uma central tem de ser vendida para cobrir os seus custos. Não diz **quando** a energia é produzida, qual o seu valor de mercado nesse momento, nem quanto custam a reserva, o armazenamento, o reforço da rede e os serviços de estabilidade. - Os custos de sistema sobem muito com a quota de renováveis intermitentes (solar e eólica), porque exigem mais armazenamento, reserva e serviços de estabilidade. Segundo a OCDE-NEA, os custos de sistema adicionais sobem de ~8 USD com 10% de renováveis variáveis para **~50 USD com 75%**, por MWh produzido por essas renováveis. Nesse cenário, o custo total passa de ~65 para ~130 USD/MWh \[1\]. - Os custos de rede não são triviais: em 2025, as redes custaram ~45 €/MWh na fatura doméstica e ~21 €/MWh na indústria em média tensão, contra ~70 €/MWh no mercado diário (valores em € de setembro de 2026) \[2, 3, 4\]. - Os geradores síncronos (nuclear, hídrica, gás) dão **inércia** à rede de forma natural. Um sistema dominado por inversores precisa de equipamento extra para a garantir, e a proposta de caderno de encargos do estudo da DGEG prevê contabilizar esses custos \[5\]. - O apagão de 28 de abril de 2025 tem os seus prejuízos estimados em **mais de 2 mil milhões €** só para as empresas portuguesas, segundo um inquérito da AIP \[6\], o que realça a importância de um sistema estável. ### Quanto custaria guardar 1 dia de consumo em baterias? - Portugal continental consome **53 TWh por ano** da rede pública **= 53 000 000 000 kWh** \[7\]. Por dia: 53 000 000 000 ÷ 365 ≈ **145 000 000 kWh**. - Custo completo de uma bateria à escala da rede, por kWh que consegue guardar: **~150 €**. É o valor de referência fixado em 2026 pelo regulador italiano para os leilões de baterias e inclui a obra toda (baterias, conversores e transformador, engenharia e construção, ligação à rede, terreno e licenças), mas não os juros \[8\]. Estimativas recentes vão de ~110 € (125 USD) \[9\] a ~190 € por kWh, este último já com juros e com capacidade extra para compensar o desgaste \[8\]. São valores para baterias de 4 horas; com mais horas, o custo por kWh desce um pouco. - **Guardar 1 dia: 145 000 000 kWh × ~150 € ≈ 22 mil milhões €** (16 a 28 mil milhões €, consoante o preço). Para comparar, 2 grandes reatores (~2,4 GW) custariam ~8–11 mil milhões € ao preço da proposta preliminar da CNNC (Tabela 4), ou ~24–31 mil milhões € ao custo europeu de Dukovany II (Tabela 3). - A diferença é que as baterias **apenas deslocam energia no tempo**. Uma central **produz** energia. - E as baterias **duram 15 a 20 anos** \[10, 11\]. Um grande reator novo é projetado para **60 anos**, e nos EUA já há 25 reatores, licenciados inicialmente por 40 anos, autorizados a funcionar até aos **80** \[12\]. Em 2026, o regulador norte-americano propôs uma regra que poderia levar algumas centrais aos 100 anos; ainda não foi aprovada \[13\]. - Ao longo de 60 anos, as baterias teriam de ser trocadas 2 ou 3 vezes, a **~16 mil milhões €** cada a preços de hoje (cerca de 3/4 do investimento inicial, estimativa do autor; menos, se os preços descerem) \[8\]. O nuclear também tem investimentos a meio da vida, mas muito menores: em França, ~1,8 mil milhões € por reator entre 2014 e 2035, já com a manutenção corrente \[14\]. - E um dia pode não chegar: nos mercados europeus analisados pela Wood Mackenzie, **41% dos episódios de “Dunkelflaute”** (pouco vento e pouco sol) **duram mais de 3 dias**. O risco concentra-se no Norte da Europa: a Bélgica regista 3 episódios por ano e Portugal nenhum, graças ao sol de inverno \[15\]. Em Portugal, o que pode exigir vários dias de reserva é um ano seco com vários dias seguidos de pouco vento (ver abaixo). ### Então porque é que a eletricidade em Portugal ainda é relativamente barata? - Em boa parte, porque a **hídrica**, com 8,4 GW dos quais 3,6 GW de bombagem, já está construída e serve de “armazenamento” barato do sistema \[7\]. - Mas a hídrica **varia muito de ano para ano** (Figura 1). Em 2022, um ano seco, produziu 6,4 TWh e o gás 16,4 TWh. Em 2024–2025, anos húmidos, a hídrica produziu ~14,5 TWh e o gás 4,9–7,6 TWh \[16, 17, 7\]. - Os aproveitamentos hídricos mais favoráveis **já estão feitos**. Se a produção renovável variável crescer muito, a capacidade da hídrica para equilibrar oferta e procura ao longo do tempo **satura**. - A procura está a crescer. Em 2025 o consumo bateu o recorde, com 53,0 TWh \[7\]. A EDP prevê que a procura cresça 4,5% ao ano entre 2026 e 2035 \[18\]. O campus de data centers de Sines prevê **1,2 GW** \[19\], o que daria até ~10 TWh/ano a plena utilização, ~20% do consumo atual.  **Figura 1** – Produção hídrica e a gás natural em Portugal, 2021–2025. O índice de produtibilidade hidroelétrica vale 1 num ano médio. Fonte: REN, Dados Técnicos \[16, 17, 7\]. ### O risco está nos anos extremos, não no ano médio - Para Portugal, o cenário a temer é a combinação de **ano seco, vários dias seguidos de pouco vento e interligação fraca**. - Na Alemanha, em novembro e dezembro de 2024, houve episódios de Dunkelflaute com preços acima de 300 €/MWh e **picos acima de 900 €/MWh**. Foi usado quase todo o parque controlável \[20\], e as importações chegaram a uma média de 10,5 GW durante três dias \[15\]. - A Península Ibérica tem apenas **~2–3% de capacidade de interligação** com o resto da Europa, longe da meta da UE de 15% para 2030. A nova ligação do Golfo da Biscaia (+2,2 GW) só chega em 2028 \[21, 22\]. - **A eólica está a envelhecer.** A 1.ª vaga de parques, ligada sobretudo entre 2005 e 2010, chega ao fim da vida útil de projeto (20–25 anos) entre ~2025 e 2035. No fim de 2010 estavam em serviço ~4 GW, cerca de 3/4 da potência eólica hoje ligada à rede pública \[23, 24, 25, 7\]. É possível renovar os parques (*repowering*), mas a decisão sobre o que construir tem de ser tomada **agora**. ### O estudo de Custos Totais do Sistema (DGEG) é a peça central - A proposta de caderno de encargos (abril de 2026, em discussão pública até 5 de maio) prevê cenários para 2035 e 2050, comparando o **nuclear**, o gás, a eólica *offshore* e uma interligação a Marrocos. Inclui custos de rede, armazenamento, reservas e inércia. O estudo será encomendado através da REN, após consulta a pelo menos 3 entidades, e não deve durar mais de **180 dias**, seguindo-se ≥ 30 dias de debate público. Até ao início de outubro de 2026, a DGEG não tinha anunciado a adjudicação nem resultados \[5, 26, 27\]. - Os dados do sistema elétrico nacional podem ser explorados de forma simples em [portugal-electricity-mix.vercel.app](https://portugal-electricity-mix.vercel.app/), ferramenta desenvolvida pelo autor com dados da ENTSO-E e mais fácil de usar do que o Data Hub da REN \[28\]. ## 2 Porque é que o nuclear tem sido caro no Ocidente? **Mensagem principal** O problema não está na física do reator, mas na **execução de megaprojetos de engenharia civil**, na qual o Ocidente tem recentemente tido um pior desempenho. Os custos dispararam onde se construiu pouco, com o projeto incompleto e com capital caro. ### Principais causas - **Perda de experiência técnica e de gestão.** Os EUA e a França passaram décadas sem construir reatores e perderam equipas e cadeias de fornecimento. Os custos elevados e as derrapagens não são uma característica inerente da tecnologia nuclear. Resultam de cadeias de fornecimento fracas e de pouca experiência recente de construção \[29\]. Países como a Coreia do Sul, China, entre outros, têm demonstrado mais consistentemente bom desempenho na execução de projetos nucleares. - **Construção iniciada com o projeto incompleto, o que obriga a refazer trabalho.** - **Vogtle 3/4 (EUA, AP1000).** O custo passou de ~14 para mais de 30 mil milhões USD, com vários anos de atraso. O Departamento de Energia dos EUA (DOE) aponta como causas o projeto incompleto, a fraca garantia de qualidade, a falta de mão-de-obra experiente e a COVID-19 \[30, 31\]. - **Hinkley Point C (Reino Unido, EPR).** Segundo a EDF, o projeto exigiu ~7 000 alterações face ao EPR francês, com +35% de aço e +25% de betão \[32\]. O regulador britânico contesta que as suas exigências tenham sido a causa principal \[33\]. O custo subiu de £18 para £35 mil milhões, a preços de 2015 (~£48 mil milhões a preços de 2026), e a 1.ª unidade está agora prevista para 2030 \[34, 35, 36\]. - **Flamanville 3 (França, EPR).** O orçamento inicial era de 3,3 mil milhões €; o Tribunal de Contas francês calcula agora 23,7 mil milhões €, incluindo o financiamento. O reator foi ligado à rede em dezembro de 2024, com 12 anos de atraso, e só atingiu a plena potência em dezembro de 2025. A 26 de setembro de 2026 entrou na primeira inspeção completa obrigatória, prevista para ~350 dias. Nela será substituída a tampa da cuba, uma exigência do regulador devido a uma anomalia no aço revelada em 2015 \[37, 38\]. - **Olkiluoto 3 (Finlândia, EPR).** O contrato chave-na-mão era de ~3 mil milhões € e previa arranque em 2009. O reator foi ligado à rede em 2022, com custo ≥ 11 mil milhões € \[39\]. - **Um modelo muito complexo: o EPR.** Na Europa Ocidental, os únicos grandes reatores começados a construir desde 2005 são EPR: Olkiluoto 3, Flamanville 3 e os dois de Hinkley Point C; Sizewell C, aprovada em 2025, também terá dois \[40, 41\]. O EPR nasceu de um projeto franco-alemão (Framatome e Siemens) que juntou engenharias diferentes e exigências de segurança nem sempre convergentes, uma das causas das dificuldades de construção, segundo o Tribunal de Contas francês \[42\]. Face ao antecessor francês, o N4, leva quase o dobro do betão, 3,5 vezes o aço e 1,7 vezes a tubagem, para só ~9% mais potência \[42, 40\]. Na China, o mesmo modelo foi mais rápido: os dois EPR de Taishan foram os primeiros do mundo a funcionar, ~9 anos após o primeiro betão, contra ~17–18 em Olkiluoto 3 e Flamanville 3, embora com ~5 anos de atraso e ~60% acima do orçamento \[40, 43\]. - **Primeiras unidades de cada modelo** (*first-of-a-kind*, FOAK). Todos estes casos foram a primeira unidade do seu modelo no país, e a curva de aprendizagem é real: segundo o DOE, Vogtle 4 custou ~30% menos do que Vogtle 3 \[44\]. - **Capital caro.** Os juros, na obra e na operação, representam **~31% do custo nivelado (LCOE) a uma taxa real de 3%, ~58% a 7% e ~70% a 10%** (Figura 2). - **Os atrasos multiplicam o custo**: cada ano a mais de obra mantém o estaleiro a custar dinheiro e, quando há dívida, os juros acumulam-se até à entrada em serviço. Em Hinkley Point C, a EDF estima que mais 12 meses de atraso custariam ~£1 mil milhões, a preços de 2015 \[35\]. - **COVID-19 e cadeias de fornecimento.** A pandemia afetou praticamente todas as obras em curso, incluindo Vogtle e Hinkley Point C \[30, 45\].  **Figura 2** – Decomposição do custo nivelado (LCOE) de uma central nuclear para três taxas de desconto reais, uma por modelo de financiamento (ver Figura 4). Cálculo próprio com os pressupostos da Figura 4: 4,5 mil milhões €/GW (*overnight*), construção em 6 anos, vida útil de 60 anos, fator de carga de 90% e O&M e combustível a 20 €/MWh. ### Não é um problema exclusivo do nuclear: é um problema de megaprojetos no Ocidente **Tabela 1** – Derrapagens de custo e prazo em grandes obras recentes fora do nuclear. | Obra | Início da obra | Abertura: prevista → atual | Custo: previsto → atual | |-------------------------------------------------------------|----------------|----------------------------|-------------------------| | HS2, 1.ª fase (Reino Unido, alta velocidade) \[46, 47, 48\] | 2020 | 2029–2033 → 2036–2039 | 35–45 → 71–82 mil M£ | | Stuttgart 21 (Alemanha, nó ferroviário) \[49, 50, 51\] | 2010 | 2019 → 2031 | 4,5 → 14,5 mil M€ | | Crossrail (Reino Unido, ferrovia urbana) \[52, 53, 54\] | 2009 | 2017 → 2022 | 15,9 → ~19 mil M£ | | Site C (Canadá, barragem) \[55, 56, 57\] | 2015 | 2024 → 2025 | 8,8 → 16 mil M CAD | | Linha Circular do Metro de Lisboa \[58, 59, 60, 61, 62\] | 2021 | 2023 → 2027 | 210 → 379 M€ | Previsto: na decisão de construir. Valores nominais, que incluem a inflação, exceto no HS2 (preços de 2019). No HS2, o custo é o de toda a 1.ª fase e o prazo é o do troço Old Oak Common–Birmingham; no Crossrail, o custo exclui os comboios. Tal como no nuclear, as causas mais apontadas são projetos pouco maduros e trabalho subestimado, a que se juntam a integração de sistemas e surpresas geológicas \[48, 51, 54, 61\]. ### A maior parte do custo é construção civil, não o reator Os equipamentos da ilha nuclear (reator e sistemas associados) representam apenas **10–22%** do custo de construção *overnight* (sem juros). O estaleiro, o arrefecimento e a instalação, ou seja, sobretudo engenharia civil e montagem, pesam **46–50%** (Tabela 2) \[63\]. Por isso, o desafio é sobretudo de **gestão de obra**. **Tabela 2** – Repartição do custo de construção *overnight* (sem juros) de reatores de água leve, em % do total \[63\]. | Componente | AP1000 genérico | EUA, histórico (mediana) | EUA, histórico (melhor caso) | APR1400 (Coreia) | EPR | |-------------------------------------------|----------------:|-------------------------:|-----------------------------:|-----------------:|---------:| | Equipamento da ilha nuclear | 12,6 | 9,9 | 16,5 | 21,9 | 18,0 | | Equipamento do turbogerador | 4,9 | 7,0 | 11,9 | 5,6 | 6,3 | | **Estaleiro, arrefecimento e instalação** | **47,5** | **46,3** | **49,3** | **45,5** | **49,7** | | Engenharia, aprovisionamento e construção | 15,9 | 17,6 | 7,7 | 20,0 | 15,3 | | Custos do dono da obra | 19,1 | 19,2 | 14,6 | 7,0 | 10,7 | ### Como baixar o custo 1. Ter o **projeto 100% concluído** antes do primeiro betão e escolher um modelo com **unidades de referência já construídas**. 2. **Construir em série**: várias unidades iguais, idealmente no mesmo local. 3. Contratar uma **gestão de obra experiente**, com historial recente de entregas, e **repartir o risco contratualmente**, para que as derrapagens causadas pelo construtor fiquem a cargo dele: por exemplo, contratos chave-na-mão ou a preço fixo, como em Olkiluoto 3, Barakah ou Dukovany II. Só protege o promotor se o fornecedor aguentar as perdas: a Westinghouse entrou em insolvência em 2017 por causa dos contratos a preço fixo de Vogtle e V. C. Summer \[64\]. 4. Garantir **financiamento barato** (secção 5). 5. Manter uma **regulação estável e previsível**. ## 3 Custo e prazo não são iguais em todo o lado **Mensagem principal** Onde há construção contínua, um reator constrói-se em 5–6 anos e por uma fração do custo das obras ocidentais recentes. Um orçamento realista para Portugal fica entre estes dois extremos. ### Prazos de construção (do primeiro betão à operação comercial) - Mundo (reatores concluídos até março de 2023): mediana de **6,3 anos** e média de 7,5 anos. Nos reatores iniciados depois de 1990, a mediana desce para 5,7 anos (Figura 3) \[65\]. - Por país: no **Japão a média é inferior a 5 anos**; na **Coreia do Sul e na China, inferior a 6 anos**. França, EUA e Reino Unido levaram alguns anos mais \[65\]. - **O caso mais rápido de um grande reator moderno** é Kashiwazaki-Kariwa 6 (Japão, ABWR, 1 356 MWe). Foi ligado à rede apenas **3 anos e 3 meses** após o primeiro betão, e a operação comercial começou ao fim de ~4 anos \[66\]. A TEPCO atribui o prazo curto à construção em grandes blocos modulares e a métodos que permitem construir com qualquer meteorologia \[67\]. - Na China, Fuqing 5 (Hualong One/HPR1000) levou 5 anos e 9 meses do primeiro betão à operação comercial, mesmo sendo o primeiro do seu modelo \[68\].  **Figura 3** – Percentagem de reatores construídos em menos de *x* anos. Reatores concluídos até março de 2023. Fonte: H. Ritchie \[65\], com dados da IAEA (PRIS). ### Custos de investimento: ordens de grandeza **Tabela 3** – Custos de investimento indicativos, em mil milhões €/GW. | Projeto / país | Mil milhões €/GW | Base | |-----------------------------------------------------------|-----------------------------------------------------|--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------| | Coreia do Sul (APR1400) | ~1,9 | *overnight*, projeção IEA/NEA (2 160 USD/kW) \[69\] | | China (reator de água leve) | ~2,2 | *overnight*, projeção IEA/NEA (2 500 USD/kW) \[69\] | | França (EPR) e EUA, unidades em série | ~3,5–3,8 | *overnight*, projeção IEA/NEA (4 000–4 250 USD/kW) \[69\] | | **HPR1000 em Portugal (2 unidades)** | **~3,5–4,4**; obra de 66–72 meses | proposta preliminar da CNNC (4 000–5 000 USD/kW; ver Tabela 4) \[70\] | | Barakah (Emirados, KEPCO, 4 × APR1400, 5,3 GW) | ~4,0 | orçamento de 2016: financiamento de 24,4 mil milhões USD, com juros da obra e primeiro combustível \[71, 40\] | | EPR2 (França, 6 reatores, ~10 GW) | ~7,3 | orçamento da EDF de dez. 2025: 72,8 mil milhões € a preços de 2020, *overnight*, sem juros; em 2022 eram 51,7 mil milhões (~5,2 por GW). Sem decisão final de investimento em out. 2026 \[72, 43\] | | Dukovany II (Chéquia, KHNP, 2 unidades, até 976 MWe cada) | ~8,4 (contrato); ~10–13 (custo *overnight* total) | contrato EPC de 2025 (407 mil milhões de coroas checas), inclui combustível para ~10 anos \[73\]; custo total: estimativa das autoridades checas com contrato EPC, combustível, custos do dono da obra e contingências, sem financiamento \[74\] | | Polónia (3 × AP1000, 3,75 GW) | ~11,2 | investimento de ~42 mil milhões € a preços correntes (a Comissão Europeia não indica se inclui os juros da obra); aprovação da Comissão de dez. 2025 \[75\] | | Vogtle 3/4 (EUA, primeiros AP1000 do país) | ~11,5–14 | custo final com financiamento: mais de 13 000 USD/kW \[30\]; ~35 mil milhões USD de 2023, segundo o MIT \[76\] | | Sizewell C (Reino Unido, EPR, 3,2 GW) | ~13,9 (alvo da empresa); ~14,8 (estimativa mediana) | £38,2 mil milhões (alvo da empresa, exclui alguns custos) e £40,5 mil milhões (limiar regulatório perto da mediana das previsões), a preços reais de 2024–25, sem financiamento \[41, 77\] | | Flamanville 3 (França, primeiro EPR do país) | ~14,5 | total com financiamento (23,7 mil milhões €) \[37\] | As bases não são iguais em todas as linhas (ver coluna “Base”). Valores noutras moedas convertidos pelo autor à taxa média de 2025 do BCE, sem correção da inflação \[78\]. **Tabela 4** – Proposta preliminar da CNNC para Portugal (jan. 2025). | Tecnologia | Potência por unidade | Tempo de construção (meses) | Custo de investimento (mil M€/GW) | | |--------------------------------------------------------|----------------------|-----------------------------|-----------------------------------|------------| | | | | 1 unidade | 2 unidades | | **HPR1000** (Hualong One) | ~1 200 MWe | 66–72 | 4,0–4,9 | 3,5–4,4 | | **AHPR1000** (sucessor do HPR1000, em desenvolvimento) | ≥ 1 230 MWe | 66–72 | 3,5–4,4 | 3,1–4,0 | | **ACP100** (Linglong One, SMR) | ~125 MWe | 48–54 | 7,1–8,8 | 5,3–7,1 | | **HTR-PM** (alta temperatura) | 210 MWe por módulo | 48–54 | 5,3–6,2 | 4,4–5,3 | Que o autor saiba, é até agora a única estimativa de custo feita especificamente para Portugal por um fornecedor. O custo inclui engenharia, primeiro combustível e contingências; o tempo de construção vai do primeiro betão à operação comercial. Estimativas obtidas pelo Eng. Pedro Sampaio Nunes nos seus contactos com a CNNC Overseas (CNOS). Valores convertidos de USD/kW pelo autor, à taxa média de 2025 do BCE \[78, 70\]. [Documento original (PDF)](https://nuclear-em-portugal.vercel.app/documentos/cnnc-proposta-preliminar-portugal-2025.pdf). - As diferenças explicam-se pela construção contínua, por cadeias de fornecimento maduras, por equipas experientes, por modelos estandardizados, pelo capital barato e pelos custos de mão-de-obra. - **A gestão caótica de alguns projetos ocidentais (EPR, AP1000) não é uma fatalidade.** Ainda assim, Portugal terá de importar o *know-how*, pelo que o **historial recente de entregas do fornecedor** deve ser um critério central de escolha. ### Que fornecedores poderiam construir em Portugal? (avaliação do autor) Avaliados pelo historial recente de entregas, estes são hoje os principais candidatos: - **KHNP/KEPCO (Coreia do Sul).** Construiu os 4 reatores de Barakah (Emirados), em grande parte a preço fixo. Entraram em operação em 2021–2024, ~4 anos depois do previsto, em boa parte por atrasos no arranque e na preparação do operador \[79\]. Ganhou o concurso de Dukovany II (Chéquia) em 2024. Mas, segundo a imprensa coreana, o acordo de 2025 com a Westinghouse impede-a de concorrer na UE fora da Chéquia; se assim for, não pode concorrer em Portugal \[80\]. - **CNNC (China).** Tem 7 Hualong One em operação comercial (5 na China e 2 no Paquistão); os mais recentes levaram ~5–5,5 anos do primeiro betão à operação \[40, 81\]. É o único fornecedor com uma proposta conhecida para Portugal (Tabela 4). Mas há risco político: até hoje nenhum país ocidental avançou com um reator chinês. O Reino Unido pagou em 2022 a saída da CGN, outra empresa estatal chinesa, de Sizewell C, e a Roménia rompeu com ela em 2020 \[82, 81\]. - **AtkinsRéalis (Canadá, reatores CANDU).** A AECL, a quem comprou a divisão CANDU em 2011, construiu Qinshan III (China, 1998–2003) antes do prazo e 10,6% abaixo do orçamento \[40, 83, 84\]. Com a Aecon, renovou os 4 reatores CANDU de Darlington (2016–2026) 4 meses antes do prazo e abaixo do orçamento \[85\]. Usa urânio natural, sem enriquecimento. Mas a última obra nova é de 2007 (o reator 2 de Cernavodă, Roménia), e o novo modelo, o Monark, ainda não foi construído \[40, 84\]. - **Westinghouse (EUA), a médio prazo.** O AP1000 já não é uma primeira unidade: tem 6 reatores a funcionar desde 2018 (4 na China e 2 nos EUA). Todos chegaram com anos de atraso e Vogtle custou mais do dobro do previsto (secção 2) \[40, 81\]. Segundo o MIT, as próximas unidades podem custar até 40% menos \[76\]. Foi escolhido pela Polónia e pela Bulgária \[86, 87\]. Fica como opção se essa descida de custo se confirmar. A **Rosatom (Rússia)** é o maior exportador de reatores, mas é politicamente inviável. A Finlândia cancelou Hanhikivi 1 em 2022, e a Comissão Europeia comprometeu-se a eliminar as importações nucleares russas \[88, 89\]. A **EDF** é, tradicionalmente, o maior construtor nuclear da Europa Ocidental. Mas todos os seus projetos recentes resultaram em atrasos e derrapagens orçamentais (secção 2), e perdeu o concurso checo para a KHNP \[90\]. Na avaliação do autor, neste momento não tem uma oferta viável: o EPR é muito complexo, e o EPR2, o EPR1200 (uma versão do EPR2 com ~1 200 MWe, pensada para exportação e proposta à Chéquia) e o SMR da EDF ainda estão em desenvolvimento \[72, 91, 92\]. ## 4 E os SMRs (pequenos reatores modulares)? **Mensagem principal** Os SMRs **ainda não provaram que produzem eletricidade mais barata**; a sua vantagem são **projetos mais pequenos e flexíveis**. O que reduz custos é a **modularidade e a construção em série**, de que os grandes reatores também podem beneficiar. ### Vantagens - **Investimento por unidade muito menor**: cada projeto arrisca menos capital, o que pode facilitar o financiamento \[93\]. Também permite **fasear** a construção e acompanhar a procura: 2 GW podem ser feitos com vários SMRs construídos em sequência. - **Mais flexibilidade na escolha do local**: menos exigências de rede local e de água de arrefecimento, e mais locais aceitáveis \[94\]. - Podem fornecer **calor** a indústrias e a redes de aquecimento urbano \[95\]. Os grandes reatores também o fazem, como Gösgen (Suíça, desde 1979), Temelín (Chéquia, desde 2023) e Haiyang (China, desde 2019) \[96, 97, 98\]. Mas o transporte de calor encarece com a distância, e os grandes reatores poderão tipicamente ficar mais longe dos utilizadores. Os SMRs poderão ficar mais perto, com zonas de emergência menores, já possíveis nos EUA e na Finlândia \[99, 100\]. ### Desvantagens - **Custo por GW mais alto**, porque se perde economia de escala. Por MWh, ainda não se sabe: com o mesmo juro, sairiam mais caros, mas um projeto mais pequeno pode conseguir juros mais baixos, e ainda não há dados para saber se isso compensa \[93\]. - Darlington (Canadá, 4 × BWRX-300, ~1,2 GW): orçamento de 20,9 mil milhões de dólares canadianos, já com juros, ou seja, **~11 mil milhões €/GW**; ~16 na 1.ª unidade, que paga a infraestrutura comum, e ~9,3 nas unidades 2 a 4 \[101, 102\]. Com juros, é quase o triplo de Barakah (Tabela 3), e é ainda um orçamento. - A proposta preliminar da CNNC para Portugal dá ao **ACP100 (SMR) ~5,3–8,8 mil milhões €/GW**, 1,5 a 1,8 vezes o custo do HPR1000 (Tabela 4) \[70\]. - NuScale/UAMPS (EUA): o preço-alvo subiu de 58 para 89 USD/MWh, mesmo com subsídios, e o projeto foi **cancelado em 2023** \[103, 104\]. - **Mais mão-de-obra por GW.** Num estudo que simula a construção de 200 GW de nuclear nos EUA, uma frota de BWRX-300 exigiria ~**87% mais trabalhadores de construção** do que uma frota de AP1000 com a mesma potência \[105\]. - **O que encolhe é a parte barata do projeto.** O equipamento da ilha nuclear vale apenas 10–22% do custo (Tabela 2). A obra civil, os edifícios auxiliares, a segurança e o licenciamento não diminuem na mesma proporção \[63, 105\]. - **A tecnologia ainda é imatura.** O Linglong One (ACP100, China), apresentado como o primeiro SMR comercial em terra, tinha a operação comercial prevista para o 1.º semestre de 2026 \[106\]. Em outubro de 2026, segundo a imprensa local, ainda estava em ensaios a quente, sem combustível, com a carga de combustível e a ligação à rede apontadas para o fim do ano \[107\]. Já o HTR-PM chinês, uma central de demonstração com pequenos reatores arrefecidos a gás, está em operação comercial desde dezembro de 2023 \[108\]. A IAEA nota que **ainda não há dados** que confirmem prazos mais curtos para os SMRs \[94\]. As primeiras unidades serão caras e demorarão a baixar de preço. ### O que reduz mesmo os custos: a modularidade - Os grandes reatores **já usam módulos fabricados em fábrica**. O AP1000 é montado com grandes módulos estruturais feitos a partir de secções pré-fabricadas; o maior, o CA20 de Vogtle, pesa ~840 t \[109\]. O ABWR de Kashiwazaki-Kariwa 6, construído em grandes blocos modulares, levou ~37 meses do primeiro betão à carga de combustível \[110, 67\]. O essencial é passar o máximo de trabalho do estaleiro para a fábrica, independentemente do tamanho do reator. ### Grandes reatores ou SMRs? - Vários países europeus seguem **as duas vias**. O Reino Unido constrói Hinkley Point C, decidiu avançar com Sizewell C em 2025 e contratou à Rolls-Royce SMR a preparação de três SMRs em Wylfa, com a decisão final de investimento prevista para 2029. A Chéquia contratou Dukovany II à KHNP e prepara um SMR da Rolls-Royce em Temelín. A Polónia negoceia o contrato de três AP1000 e tem um programa privado de BWRX-300. A França prepara os EPR2 e desenvolve o seu SMR, o Nuward \[41, 111, 112, 86, 113, 72, 92\]. - **Recomendação:** para entrar no nuclear dentro de uma década, o mais seguro é um modelo com **unidades de referência a funcionar**. Hoje, isso aponta sobretudo para **reatores de 3.ª geração avançada (Gen III+) de média ou grande potência**. Os SMRs devem ser avaliados em paralelo: se as primeiras unidades, como Darlington, cumprirem custos e prazos, podem tornar-se uma boa opção, sobretudo para fasear o investimento ou fornecer calor. ## 5 Financiamento e tipos de promotores **Mensagem principal** Num projeto nuclear, **a taxa de juro pesa tanto ou mais do que o preço do reator**. Baixar o custo do capital é a alavanca mais poderosa, e hoje há mais instrumentos para o fazer do que há cinco anos.  **Figura 4** – Custo nivelado da eletricidade (LCOE) em função da taxa de desconto, para vários níveis de investimento. Cálculo próprio com os mesmos pressupostos do gráfico apresentado na AIP: vida útil de 60 anos, fator de carga de 90%, O&M e combustível a 20 €/MWh, investimento repartido por 72 meses. Faixas sombreadas: taxas reais indicativas de cada modelo de financiamento, estimadas pelo autor a partir de casos e avaliações oficiais. Os casos usam medidas diferentes (juro da dívida, custo médio do capital autorizado pelo regulador, rentabilidade pedida pelos acionistas), por isso as faixas são aproximadas. Estado ou crédito à exportação, ~2–4%: a taxa mínima da OCDE para crédito à exportação de longo prazo em euros é de 4,49% em out.–nov. 2026 (~2,4% real) \[114\], e o empréstimo russo a Paks II (Hungria) paga 3,95–4,95% nominal (~2–3% real) \[115\]. CfD ou RAB, ~5,5–8%: Sizewell C, 6,73% real \[77\]; Hinkley Point C, ~9% nominal (~6,4% real) \[116\]. Privado sem garantias, 9% ou mais: ~12% nominal, segundo o Tribunal de Contas britânico \[116\]. Os modelos mistos, como Dukovany II (4,5–7% nominal), ficam na primeira faixa ou logo acima \[117\]. Taxas nominais convertidas pelo autor com inflação de 2–2,5%. Experimente a calculadora interativa no site: [nuclear-em-portugal.vercel.app/#financiamento](https://nuclear-em-portugal.vercel.app/#financiamento) - Para um investimento de 4,5 mil milhões €/GW, o LCOE é de **~43 €/MWh a 3%**, ~70 €/MWh a 7% e **~97 €/MWh a 10%**. O reator é o mesmo; só muda o custo do dinheiro. - **O modelo de financiamento pesa muito no custo** (zonas sombreadas, indicativas): com dívida do Estado ou crédito à exportação, ~37–48 €/MWh; com CfD ou RAB, ~59–79 €/MWh; com um promotor privado sem garantias, ~88 €/MWh ou mais. - Por isso, **num concurso, as propostas devem ser comparadas com o financiamento incluído**, e não só pelo preço do contrato. - Para comparação, o preço médio do mercado diário em Portugal foi de ~70 €/MWh em 2025 e de ~82 €/MWh em 2026 até 21 de outubro (em € de setembro de 2026) \[4\]. - A IEA/NEA chega a valores do mesmo tipo: a componente de investimento do LCOE do EPR francês é de 21 USD/MWh a 3% e de 73 USD/MWh a 10% \[69\]. O custo do capital baixa de duas formas: com **dinheiro mais barato** ou com **menos risco**, garantindo uma receita previsível, para que credores e acionistas peçam menos. ### De onde vem o dinheiro - **Estado: empréstimo e capital.** Em regra, é um auxílio de Estado e precisa de aprovação da Comissão Europeia. Em Dukovany II (Chéquia), o Estado empresta o dinheiro de toda a construção, estimado em 23–30 mil milhões €: sem juros durante a obra e depois ao custo da dívida pública mais 1 ponto (mínimo de 2% ao ano), a devolver em 30 anos com as receitas da central \[74\]. É também dono de 80% da empresa do projeto; a elétrica ČEZ tem os outros 20% \[118\]. No Reino Unido, o banco de fomento do Estado empresta até £36,6 mil milhões dos £38 mil milhões de Sizewell C \[119, 41\]. - **Créditos à exportação** (*Export Credit Agencies*, ECAs). O país fornecedor empresta ou garante parte do financiamento, a prazos longos, para ganhar o contrato. - Coreia → Emirados (Barakah): 2,5 mil milhões USD a 18 anos \[39\]. - França → Finlândia (Olkiluoto 3): empréstimo de 570 M€, garantido a 95% \[120\]; França → Reino Unido (Sizewell C): garantia sobre £5 mil milhões de empréstimos \[121\]. - China → Paquistão (Karachi 2/3): 6,7 mil milhões USD a 20 anos, em três tranches a 2%, 6% e 1% (**média ~3,3%**) \[39\]. - Rússia → Egito (El Dabaa): 25 mil milhões USD a 22 anos, a 3% \[122, 123\]. - **Banco Europeu de Investimento (BEI).** Tradicionalmente reticente em relação ao nuclear, está a mudar. A presidente Nadia Calviño defende-o \[124\]. O banco emprestou 400 M€ à Orano para enriquecimento de urânio (2025) \[125\] e aprovou, em julho de 2026, um empréstimo de 800 M€ para a extensão de vida do reator 1 de Cernavodă, na Roménia \[126\]. Em 2026, fez ainda o seu primeiro investimento em SMRs: até 40 M€ na finlandesa Steady Energy, que desenvolve um pequeno reator para aquecimento urbano \[95\]. - **Taxonomia da UE e obrigações verdes** (*green bonds*). O nuclear está na taxonomia da UE; a Áustria contestou, perdeu no Tribunal Geral em 2025 e recorreu para o Tribunal de Justiça \[127, 128\]. A EDF já emitiu obrigações verdes para nuclear (2023, 1 mil milhões €) \[129\]. Pouco baixam o juro, que continua a ser o do emitente: na zona euro, o desconto médio face às obrigações normais foi de ~0,04 pontos percentuais em 2016–2021 \[130\]. A vantagem é chegar a mais investidores. - **Banco Mundial.** Levantou em junho de 2025 a proibição de financiar nuclear. Só empresta a países em desenvolvimento, mas é um sinal de mudança \[131\]. ### Receita previsível, juros mais baixos - **Contratos de longo prazo (PPA) com grandes consumidores.** O comprador compromete-se a comprar a energia durante anos, e os bancos emprestam contra essa receita. As grandes tecnológicas estão a contratar nuclear: a Microsoft vai comprar, com um PPA de 20 anos, a energia de Three Mile Island 1 (835 MW), a reativar pela Constellation; a Amazon fechou 1,9 GW com a Talen (18 mil milhões USD) e a Meta até 6,6 GW até 2035 \[132, 133, 134\]. **Sines** é um candidato natural a este tipo de contrato em Portugal. - **Modelo Mankala (Finlândia).** Os acionistas (indústria e empresas municipais de energia) entram com o capital e ficam com a eletricidade **a preço de custo**, na proporção da sua participação: pagam a sua parte dos custos fixos, usem a energia ou não, e podem consumi-la ou revendê-la \[135, 136\]. É esse compromisso que permite à empresa endividar-se barato. Cerca de metade da eletricidade finlandesa vem de empresas deste tipo \[137\]. - Olkiluoto 3, da TVO, fez-se assim, sem CfD: ~75% de dívida e ~25% de capital e empréstimos subordinados dos acionistas, que não recebem dividendos \[138\]. Parte dos acionistas é pública (a Fortum, detida em ~51% pelo Estado finlandês, tem um quarto da TVO) \[139, 140\]. E o contrato chave-na-mão protegeu-os: a TVO estimava investir ~5,5 mil milhões €, e a maior parte do resto da derrapagem ficou com os fornecedores (Areva, então controlada pelo Estado francês, e Siemens) \[141, 39\]. - *Para Portugal:* um consórcio de grandes consumidores (indústria eletrointensiva, data centers) teria eletricidade **a preço de custo** durante a vida da central, menos exposta ao mercado, assumindo a sua parte dos custos e dos riscos; esse compromisso dos acionistas dá segurança aos credores. - **RAB** (*Regulated Asset Base*). Os consumidores começam a pagar a central já durante a obra, com uma pequena parcela na fatura que remunera o capital investido: é preciso pedir menos emprestado e pagam-se menos juros. No Reino Unido, o mecanismo continua depois do arranque, com uma receita anual fixada pelo regulador \[142\]. - *Exemplo:* Sizewell C (Reino Unido, 3,2 GW), com decisão final em julho de 2025 e custo de £38 mil milhões. Segundo o Tribunal de Contas britânico, com base em estimativas do Governo, custa £4 por família em 2025–26, a subir até £17–19 por ano antes do arranque \[41, 143, 77\]. - *Ordem de grandeza para Portugal (cálculo próprio).* Para 2 unidades com ~11 mil milhões € de investimento, construídas em 6 anos, uma remuneração real de 5% sobre o capital já investido custaria em média ~5 €/MWh aos ~53 TWh consumidos, subindo até ~10 €/MWh no fim da obra. É viável, mas pesa mais do que no Reino Unido, cujo consumo é muito maior. - **Contrato por diferença (CfD) bidirecional.** O Estado garante um preço: quando o mercado fica abaixo, paga a diferença; quando fica acima, a central devolve-a. Como qualquer garantia de preço, é uma intervenção no mercado e passa parte do risco para consumidores ou contribuintes; a versão bidirecional limita-a, porque impede lucros extraordinários. A partir de 17 de julho de 2027, qualquer apoio direto ao preço de uma central nova (nuclear, eólica, solar, geotérmica ou hídrica sem albufeira) tem de ter esta forma ou outra equivalente \[144, 145\]. - *Exemplo:* Dukovany II: CfD de 40 anos e preço-alvo inferior a 90 €/MWh \[146, 147\]. A Comissão Europeia aprovou em abril de 2024 o apoio a uma unidade. O alargamento a duas unidades, a que se referem estes valores, está em investigação aprofundada desde dezembro de 2025, e o Governo checo espera a decisão no início de 2027 \[146\]. ### E os promotores privados? - Para um promotor privado, sem apoio do Estado e a vender ao mercado, o capital sai bem mais caro (~88 €/MWh ou mais, Figura 4). Os PPA e o Mankala são a forma de garantir a receita sem o Estado. - **O mais provável é um modelo misto.** O Estado pode funcionar como âncora (capital, empréstimo ou garantia), ao lado de investidores privados e de infraestruturas, de grandes consumidores (Mankala ou PPA) e de crédito à exportação do país fornecedor. Sizewell C é um exemplo: Estado com 44,9%, mais La Caisse, Centrica, EDF e Amber \[41\]. ### Para Portugal: o que parece mais promissor (avaliação do autor) - **Capital barato na obra, sem garantia de preço na operação.** Com dívida do Estado ou crédito à exportação, o LCOE fica em ~37–48 €/MWh, abaixo do preço médio do mercado (~70–82 €/MWh em 2025–26): a central paga-se com as vendas. Por isso, o apoio público deve concentrar-se no financiamento da obra (empréstimos, crédito à exportação ou um RAB só durante a construção) e não garantir preços na operação. - **Para baixar o juro: crédito à exportação do país fornecedor.** As regras da OCDE permitem reembolsos até 22 anos depois do fim da obra \[148\]. Nos estreantes europeus é a maior fonte de dívida anunciada: na Polónia, 11 agências deram cartas de intenção de mais de 100 mil milhões de zlótis (~28 mil milhões USD), e a dívida deverá cobrir 70% do investimento \[149\]. Mas são cartas não vinculativas, ligadas a compras ao país de cada agência, e até agora só financiaram engenharia anterior à obra \[149, 150\]. Na proposta preliminar para Portugal, a CNNC recomenda crédito à exportação chinês e admite ser acionista minoritária do projeto \[70\]. - **O BEI como complemento.** As regras do BEI permitem financiar centrais nucleares, com parecer favorável ao abrigo do Tratado Euratom e um quadro legal e regulador adequado \[151\]. Nos últimos anos tem financiado sobretudo combustível, prolongamentos de vida e modernizações \[125, 126, 152\]. Para Portugal, só seria uma opção depois de criados a lei nuclear e o regulador. - **Para garantir a receita, há vias de mercado:** contratos de longo prazo com grandes consumidores (data centers de Sines, indústria) ou um consórcio do tipo Mankala. Ainda assim, nos projetos europeus recentes o Estado acabou por assumir o grosso do risco. Na Polónia, por exemplo, entra com ~14 mil milhões € de capital, garante 100% da dívida e assina um CfD de 40 anos \[153\]. ## 6 Como se introduz o nuclear num país estreante? **Mensagem principal** A IAEA estima **10–15 anos** desde a primeira ponderação até à primeira central \[94\]. Grande parte do caminho crítico é preparação institucional **barata**, que pode avançar **já**, em paralelo com o estudo da DGEG, sem comprometer a decisão final. **Tabela 5** – As três fases da IAEA \[94, 154\]. | Fase | O que inclui | Marco no fim da fase | |---------------------------------------|------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------|------------------------------------------------------| | **1. Ponderação** (antes da decisão) | Estudo de pré-viabilidade; criação da NEPIO (organismo que coordena o programa); levantamento de locais (~1 ano); análise do quadro legal e dos recursos humanos | Pronto para uma decisão informada | | **2. Preparação** (depois da decisão) | Lei nuclear; regulador independente; seleção e caracterização do local (a caracterização demora tipicamente 24–30 meses, com ≥ 1 ano de monitorização, sem contar contratações, licenças nem revisão regulatória); dono e operador da central; financiamento; concurso | Pronto para lançar o concurso ou negociar o contrato | | **3. Implementação** | Contrato; licenciamento; construção (~5,5–7 anos \[65, 70\]); comissionamento | Pronto para operar | - **Referência de um país estreante rápido: Emirados Árabes Unidos.** Decisão política em 2008, lei, regulador e contrato com a KEPCO em 2009, início da construção em julho de 2012 e 1.ª ligação à rede em 2020, **~12 anos no total** \[79\]. - **Um aviso de realismo: Dukovany II (Chéquia).** Mesmo num país com experiência nuclear, o contrato foi assinado em junho de 2025 e a construção só deve começar em 2029; a meta é iniciar os ensaios em 2036 e a operação comercial em 2038 \[155, 90\]. ### O que pode começar já (passos “sem arrependimento”, de custo baixo) 1. **Criar a NEPIO**, uma pequena equipa interministerial que coordena todo o programa. 2. **Estudo de pré-viabilidade e levantamento de locais** (*site survey*), em ~1 ano \[154\]. Antigas centrais térmicas já ligadas à rede de muito alta tensão, como o Pego ou Sines, são candidatos óbvios a avaliar (secção 7). 3. **Começar já a monitorizar os locais candidatos** (meteorologia, sismicidade, hidrogeologia). A monitorização no local exige pelo menos um ano completo de registos (alguns reguladores pedem mais). Antes e depois desse ano, a IAEA conta mais ~20–24 meses para adquirir e instalar o equipamento, tratar os dados e apresentar resultados; por isso convém começar cedo. Numa zona sismicamente ativa, o estudo sísmico pode levar ~3 anos \[154\]. 4. **Regulador.** Há duas opções, mas a segunda tem muito mais incerteza jurídica: - **Regulador nacional, em cooperação com Espanha** (a via mais rápida): - partir da **Autoridade Reguladora Nacional** que já existe (APA e IGAMAOT, desde 2018) \[156\]; - fazer um **acordo de cooperação com o regulador espanhol (CSN)** para formação, apoio técnico e partilha de avaliações, que a diretiva Euratom permite \[157\]; - **adotar a regulamentação de um país com experiência no modelo escolhido**, como a IAEA recomenda, e cooperar com o regulador do país fornecedor \[94\]. - **Regulador ibérico único.** A diretiva Euratom obriga cada Estado-Membro a ter uma autoridade reguladora competente e independente \[157\]. Não proíbe uma autoridade partilhada, mas não a prevê, e nunca se fez. Exigiria um tratado e leis nos dois países. Há o risco de a Comissão Europeia o contestar; nesse caso, poderia ser preciso alterar a diretiva, o que pode ser moroso. 5. **Pré-avaliar os modelos de reator candidatos**, aproveitando as avaliações já feitas por reguladores experientes. Por exemplo, o Reino Unido concluiu a avaliação genérica de projeto (GDA) do EPR (2012), do AP1000 (2017), do ABWR (2017) e do HPR1000 (2022) \[158, 159\]. 6. **Preparar a lei nuclear**: licenciamento, responsabilidade civil, resíduos e desmantelamento, salvaguardas. 7. **Formar pessoas**: um curso de excelência em engenharia nuclear no ensino superior e programas de formação com os fornecedores e com a IAEA. Nos primeiros anos, a empresa operadora pode ter um sócio com experiência, como a KEPCO nos Emirados (18% da operadora, mais 400 técnicos da KHNP até 2030) \[79\]; a responsabilidade pela segurança continua a ser da empresa licenciada e não se delega \[157\]. 8. **Desenhar o modelo de financiamento** (secção 5) e sondar fornecedores e agências de crédito à exportação. 9. **Pedir uma missão INIR da IAEA**, que avalia o grau de preparação da infraestrutura nacional. 10. **Comunicar com o público e envolver as autarquias** candidatas desde o início.  **Figura 5** – Cronograma ilustrativo, otimista mas plausível, se os passos “sem arrependimento” arrancarem em 2027, em paralelo com o estudo da DGEG. Em baixo, a referência da IAEA: 10–15 anos até à primeira central \[94\]. Os Emirados levaram ~12 anos da decisão política à 1.ª ligação à rede \[79\]. O intervalo de ~1,25 anos entre o contrato e o primeiro betão pressupõe pré-licenciamento durante o concurso e é otimista (Olkiluoto 3: ~1,5; Emirados: ~2,5; Dukovany II: ~4, previsto) \[88, 79, 155\]. Cálculo próprio com base em \[94, 154, 70\]. Os marcos com maior risco de atraso são discutidos na subsecção seguinte. ### Onde estão os maiores riscos do cronograma 1. **Contrato.** Um concorrente vencido pode contestar a adjudicação, e a Comissão Europeia tem de aprovar o apoio do Estado e pode analisar subsídios estrangeiros ao vencedor. Em Dukovany II aconteceram as três coisas, e um tribunal chegou a travar a assinatura durante um mês \[160, 161, 117\]. - **Lição:** critérios de avaliação claros e publicados à partida, para que uma contestação seja rejeitada depressa, e falar com a Comissão desde cedo, já com o âmbito completo do projeto (em Dukovany II, o alargamento à 2.ª unidade obrigou a nova investigação) \[146\]. 2. **Arranque.** Em Barakah, com a obra acabada em 2018, falhas na preparação da empresa operadora, algumas por falta de domínio do inglês, adiaram o arranque pelo menos 18 meses \[79\]. - **Lição:** avaliar regularmente a prontidão do operador antes do fim da obra, para corrigir a tempo, e fixar cedo o inglês como língua de trabalho, com exigência de fluência elevada. ## 7 Onde construir uma central nuclear em Portugal? **Mensagem principal** O local deve sair de um **levantamento nacional segundo os critérios da IAEA** (~1 ano), e não de uma escolha à partida. Ainda assim, há locais com boas condições de base, sobretudo **antigas centrais térmicas**, que já têm ligação à rede de muito alta tensão, acessos e tradição industrial. ### Critérios principais  **Figura 6** – Locais frequentemente referidos, a título ilustrativo e sem estudo de localização. Contornos e rios: Natural Earth \[162\]. 1. **Água para arrefecimento, do mar ou de um rio.** - Em circuito aberto, um reator de 1 GWe capta ~45–50 m³/s, que devolve mais quentes. - Com **torres de refrigeração** capta ~1,2 m³/s e **consome por evaporação ~0,7 m³/s** \[163\]. - *Exemplo:* Cofrentes (Espanha, 1 092 MWe) usa torres de refrigeração com água do rio Júcar, de caudal médio 45 m³/s, e tem uma captação autorizada de 1,1 m³/s \[164\]. Na bacia do Tejo, em Espanha, já funcionam Almaraz, arrefecida pela albufeira de Arrocampo, e Trillo, com torres de refrigeração \[165\]. 2. **Rede elétrica.** O local precisa de ligação à rede de 400 kV com capacidade para escoar 1–3 GW. **Reaproveitar a rede existente** de antigas centrais poupa linhas novas e anos de licenciamento. 3. **Geologia e sismicidade.** É preciso excluir falhas ativas, deslizamentos e solos sujeitos a compactação ou liquefação. - A sismicidade é maior no Sul: pelo Eurocódigo 8, a aceleração de referência vai de ~0,04–0,08 g no Norte a ~0,25 g no Algarve \[166\]. - A sismicidade não impede o nuclear, como mostra o Japão, mas encarece o projeto e alonga o estudo do local, que pode levar ~3 anos numa zona sismicamente ativa \[154\]. 4. **Cheias e riscos externos.** Há que avaliar cheias, galgamentos costeiros e tsunamis (a lição de Fukushima), indústrias perigosas e aeroportos próximos, e ainda a densidade populacional e o planeamento de emergência \[154\]. 5. **Acessos para cargas excecionais.** - No AP1000, o vaso do reator pesa **278 t** e cada gerador de vapor **600–680 t**, com 24 m de comprimento \[167, 168, 169\]. - Em V. C. Summer (EUA), o primeiro gerador de vapor (680 t), fabricado pela Doosan na Coreia, chegou por mar ao porto de Charleston e fez o último troço **por ferrovia**, num vagão especial \[169\]. Ajuda ter porto, ferrovia ou estradas que suportem estes pesos e dimensões. 6. **Impacto económico local e descentralização.** - Por cada 1 000 MWe, a construção gera ~12 000 anos-trabalho diretos e a operação ~600 empregos diretos permanentes durante ~50 anos. Contando o emprego indireto e induzido, são ~200 000 anos-trabalho ao longo da vida da central \[170\]. - A central pode ancorar um **polo industrial** que use a sua eletricidade e o seu calor. Para isso, convém estar perto de boas infraestruturas de transporte para escoar a produção. - Isto pesa porque o interior continua a perder população a um ritmo muito superior à média nacional (−2,1% entre 2011 e 2021); Penamacor, por exemplo, perdeu 16% \[171, 172\]. Ao mesmo tempo, o país tem **723 mil casas vagas** (12%), com a percentagem mais alta no Alentejo (16,5%), enquanto a sobrelotação se concentra no litoral e nas áreas metropolitanas \[173, 174\]. Criar emprego qualificado no interior ajuda a fixar população e pode **aliviar a pressão sobre a habitação no litoral**. ### Locais frequentemente referidos (avaliação preliminar) **Tabela 6** – Pontos a favor e incógnitas. Esta não é uma recomendação: todos os locais exigem estudo de caracterização.
| Local | A favor | Incógnitas e pontos contra |
|---|---|---|
| Pego (Abrantes), antiga central a carvão (~600 MW, encerrada em 2021) |
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| Sines, antiga central a carvão (~1 250 MW, encerrada em 2021) |
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| Lavos / Leirosa (Figueira da Foz) |
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| Ferrel (Peniche) |
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